A esta hora, o vestiário ao lado do ginásio estava deserto.
Não havia treino, e as longas fileiras de armários verdes erguiam-se num silêncio quebrado apenas pelo gotejar cadenciado da água em algum ponto dos chuveiros e pelo zumbido dos canos nas paredes. Simon tinha chegado ali sem quase se lembrar de como: as pernas o haviam levado sozinhas, para longe do refeitório, das risadas, dos olhares alheios, até o único lugar onde, naquele momento, não havia viva alma. O refrigerante secara em seu cabelo, repuxara a pele do pescoço numa crosta pegajosa, encharcara a gola do moletom. Precisava lavá-lo. Lavar tudo aquilo.
Começou a arrancar do corpo as roupas manchadas de refrigerante — o moletom por cima da cabeça, a camiseta, todo o resto —, até ficar nu no meio do vestiário vazio e ecoante.
O corpo dele estava à altura de toda a sua vida — como se tivesse sido feito para escondê-lo dos olhares alheios. Uma pele pálida até a transparência, quase luminosa sob a luz cinzenta, sem o menor vestígio de bronzeado, fina e delicada como papel de seda: a pele de quem raramente toma sol e a quem mãos alheias tocam ainda mais raramente. Sob ela, adivinhava-se uma beleza frágil, discreta — a longa linha do pescoço, as clavículas delicadas, o peito liso e sem pelos, os quadris estreitos. Um corpo intocado, puro, quase virginal, que em toda a sua vida ainda não conhecera uma única carícia, nem um só toque terno.
E por aquele corpo pálido e intocado, riscando toda a sua frágil beleza, espalhavam-se os hematomas.
Eram muitos, e todos diferentes. Amarelo-esverdeados, já desbotando, nas costelas. Recentes, arroxeados, com a marca de dedos alheios, no ombro e no antebraço. Antigos, entranhados sob a pele como uma sombra escura. Todo um mapa de dor que Simon carregava sobre si como outros carregam as roupas — e cada mancha tinha o seu próprio autor. Havia as marcas de Jacob, deixadas quase com descuido, de passagem. Havia os vestígios dos pesados punhos de Craig: esse batia pra valer, com impulso, com deleite. E por baixo de todas elas, mais fundas e mais antigas que qualquer outra, estavam as primeiras de todas — as do pai. Aquelas com que um dia tudo começara; as que, ainda na infância, lhe haviam ensinado uma coisa simples e terrível: .
Magro, fibroso, sem um grama a mais, todo ossinhos pontudos e músculos longos e secos sob a pele luminosa. Frágil. Indefeso. Espancado. E, ainda assim — de um modo atroz, indevido —, belo de doer.
Um daqueles corpos que não se consegue olhar com calma. Um daqueles que despertam ao mesmo tempo dois desejos — iguais em força e opostos em essência. Quebrá-lo: acabar com ele, destruí-lo por completo, apagar aquela beleza irritante, indefesa, imerecida, para que não restasse dela nada no mundo. Ou, ao contrário, cobri-lo com o próprio corpo, protegê-lo de todos, levá-lo para onde ninguém jamais pudesse tocá-lo de novo — nem com um punho, nem com uma palavra cruel, nem sequer com um olhar. E nada, absolutamente nada no meio.
Entrou debaixo do chuveiro e abriu o registro até o fim, no mais quente.
A água fervente atingiu seus ombros, sua nuca, queimando, e Simon quase se sufocou — mas não a diminuiu. Queria que estivesse quente. Queria que a água levasse embora não só aquela porcaria química e adocicada, mas também os olhares, e as risadas, e o próprio reflexo rachado. O vapor subia à sua volta como uma cortina espessa, assentava nos azulejos, esfumava os contornos, e naquela névoa branca e quente Simon sentiu-se enfim abrigado. Escondido. Encostou a testa no azulejo escorregadio, fechou os olhos, e a água quente escorreu por ele, misturando-se a lágrimas que já nem percebia.
Mas o que havia por dentro, a água não conseguia levar embora.
Porque mesmo agora — esmagado, esvaziado, sob os jatos escaldantes — ele sentia como, contra a própria vontade, subia nele a mesma coisa de sempre. Bastava soltar os pensamentos para que, na névoa quente, ele ressurgisse. Jacob. As mãos dele, a voz dele, o peso dele. A cena do refeitório repassava em círculos na sua cabeça, mas distorcida, envenenada: eis Jacob inclinando a garrafa sobre ele — e no instante seguinte a memória lhe impingia não mais o refrigerante, mas os dedos dele na própria nuca, o hálito quente dele junto à têmpora.
Simon bateu com força a palma da mão no azulejo. Para. Para, para.
Como ele se odiava. Por que, mesmo agora, depois de tudo, depois da humilhação pública, alguma parte doente, apodrecida dele ainda assim se voltava para a pessoa que o destruía. Para aquele que acabara de despejar refrigerante na sua cabeça sob as risadas do salão inteiro. Era errado, perverso, vergonhoso a ponto de dar vontade de arrancar a própria pele. E ainda assim — se voltava.
Não soube quanto tempo ficou assim debaixo da água. Quando por fim fechou o registro e o silêncio desabou sobre ele, zunindo em seus ouvidos, a pele ardia, vermelha. Enrolou uma toalha em volta dos quadris, empurrou a porta do chuveiro — e saiu para o vestiário, convencido de que continuava vazio.
Ele estava enganado.
No banco junto à parede do fundo, esparramado à vontade, estava sentado Jacob.
Não vestia quase nada: só uma sunga branca colada aos quadris; o corpo grande, maciço e bronzeado estava largado, relaxado, ao comprido do banco. Pelo visto, já tinha se despido para o treino. Ao ouvir os passos, ergueu a cabeça sem pressa.
E por um instante ficou imóvel.
Diante dele, na porta dos chuveiros, estava Simon: molhado, só com uma toalha nos quadris estreitos, mechas escuras coladas à testa. A água escorria pela pele pálida e luminosa, pelas clavículas salientes, pelos braços fibrosos. Franzino, desnudado, indefeso, ainda quente do banho fervente.
Jacob percorreu-o com o olhar devagar, com atenção, sem o menor constrangimento — de cima a baixo e de volta. E em algum lugar bem no fundo, naquele ponto cuja existência ele negava até para si mesmo, a fome de sempre de repente ficou mais espessa, mais densa, mais pesada. Jacob nem entendeu o que estava acontecendo com ele. Só sentiu a boca ficar seca.
No rosto dele aflorou devagar um sorriso torto conhecido, predatório, triunfante.
— Oi, pequeno — disse arrastando a voz, baixinho, e nela havia algo novo, uma rouquidão espessa e lenta.
Simon ficou paralisado. O coração despencou. Nu sob a toalha fina, molhado, e nenhum caminho até o armário com as roupas — nenhum que não passasse rente a ele.
— Jacob... — A voz de Simon tremeu e falhou. Ele recuou, comprimiu as omoplatas contra o metal frio dos armários, e já tinha lágrimas nos olhos. — Por favor. Me deixa em paz. Chega. Não aguento mais, só... sai de perto de mim, eu te imploro.
Estava quase soluçando — acuado, lastimável, sem uma gota da insolência de antes. Do rapaz que apenas uma hora antes, no refeitório, cuspira o seu "babaca" por entre os dentes não restava nada: diante de Jacob estava um garoto morto de medo, levado ao limite extremo, pronto para implorar.
— Relaxa, mano. — Jacob se ergueu preguiçosamente do banco, e cada movimento seu era vagaroso, seguro, como o de um predador que sabe: a presa não tem para onde fugir. — Cheguei antes de você. Só me troquei para o treino. Começa daqui a uns minutos.
Avançou na direção de Simon — devagar, gingando, bloqueando com o corpo o espaço já apertado. Simon se comprimia cada vez mais contra os armários, mas não havia para onde recuar, e Jacob via isso perfeitamente. Via como ele tremia miudinho — nu, molhado, encurralado, coberto por uma única toalha. Via as gotas que ainda escorriam pela pele pálida, os olhos dilatados de terror, o peito que subia e descia aos espasmos.
E diante daquela visão — diante da impotência alheia, diante do modo como aquele garoto franzino e trêmulo enterrava as costas no metal frio, incapaz de fugir ou de revidar —, de novo algo se erguia dentro de Jacob, ficava pesado, se enchia de um calor sombrio. Ele gostava daquilo. Gostava muito mais do que deveria — e o pensamento disso, que deslizou pela beira extrema da consciência, foi no mesmo instante descartado, esmagado, proibido.
Parou colado a ele. Tão perto que Simon sentiu o calor da pele dele, sentiu aquele cheiro — aquecido, pesado, masculino, aquele que lhe embaçava a cabeça na vigília do mesmo modo que a embaçava nas suas fantasias vergonhosas. Grande, ardente, quase nu, Jacob debruçou-se sobre ele e apoiou a palma da mão no armário bem ao lado da sua cabeça, prendendo-o entre o próprio corpo e o metal frio.
— Sabe — disse ele quase com ternura, e aquela ternura fez percorrer as costas de Simon um arrepio —, acho que no refeitório eu passei um pouco dos limites.
No tom dele não havia nem uma gota de arrependimento.
— Mas foi você que me chamou de babaca primeiro. Lembra, pequeno?
Simon respirava rápido, curto, entrecortado. Olhava de baixo para os olhos escurecidos do seu algoz, e tremia todo — nem ele mesmo já sabia se era de medo ou daquilo sombrio, vergonhoso, que subia nele em resposta.
— Por que você fica fazendo isso o tempo todo... — arrancou quase sem voz. — Eu não te fiz nada.
Em vez de responder, Jacob ergueu devagar a mão. Dedos firmes se fecharam em torno do queixo de Simon — duros, possessivos, obrigando-o a levantar a cabeça, a oferecer o rosto. O polegar pousou no seu lábio inferior, apertou de leve. Os rostos ficaram bem próximos, os hálitos se misturaram.
— Se você quer que eu seja mais suave com você, pequeno... — Jacob soprou quase contra os seus lábios, a voz rouca, apagada —, ...então peça. Peça direitinho.
Simon tremeu mais forte. Sabia que devia afastar aquela mão, virar o rosto, sair correndo — mas não conseguia. O corpo o traía do modo mais vergonhoso: a respiração falhava, um arrepio corria pela pele, e, para o seu próprio horror, ele não se afastava dos dedos alheios no rosto, mas se inclinava imperceptivelmente na direção deles, como se busca o calor.
E Jacob sentiu.
Ficou imóvel por um instante, e nos olhos escurecidos passou algo novo — surpresa, reconhecimento, e por baixo, mais fundo, uma satisfação sombria e densa. Com o polegar, percorreu devagar o lábio inferior trêmulo de Simon, puxou-o um pouco para baixo, sem tirar dele o olhar pesado.
— Olha só — soltou com voz rouca, quase com escárnio, mas naquele escárnio já não restava a leveza de antes — a voz ficara pesada, ficara espessa. — Mas você gosta disso. Né, pequeno? Você gosta quando eu fico assim tão perto.
— Não... — arrancou Simon quase sem som algum, e aquele "não" soou como a mentira mais lastimável do mundo. As lágrimas da vergonha ardiam nos seus olhos. — Por favor...
— Por favor... o quê? — Jacob se aproximou ainda mais, colado a ele, e agora o peito ardente e quase nu dele quase tocava o peito molhado de Simon. Este sentia nas costas o metal gelado dos armários e, pela frente, o calor abrasador de um corpo alheio transbordando de força, a poucos milímetros da própria pele. Duas respirações descompassadas, rápidas e rasgadas, se misturavam no ar quente do vestiário. — Para eu parar? Ou para eu não parar?
Simon não respondeu. Não conseguiu. Olhava de baixo para os lábios alheios — a poucos centímetros dos seus — e na cabeça não lhe restava um único pensamento coerente. Só aquela fome ensurdecedora, vergonhosa, acumulada durante anos, que o preenchia por inteiro, até a borda, sem deixar espaço nem para o medo nem para a razão.
E naquele instante .
O vapor quente, o calor alheio, o hálito nos seus lábios, os dedos no seu queixo, as noites em claro, os comprimidos, a névoa turva dos últimos dias — tudo aquilo se fundiu numa única onda espessa, sombria, ensurdecedora. A linha tênue entre aquilo que Simon revirara tantas vezes na cabeça febril durante as noites e aquilo que acontecia agora, de verdade, foi ficando mais fina — e se rompeu. Quantas vezes ele imaginara aquilo: o calor de um corpo alheio, o cheiro, a voz grave e rouca junto ao próprio ouvido. E agora tudo aquilo era real, a poucos milímetros, e a sua mente exausta, envenenada, já não distinguia a vigília do delírio febril. Onde terminava o Jacob das suas fantasias e onde começava o que estava diante dele em carne e osso, Simon não saberia dizer. O corpo se movia sozinho, à margem da razão, à margem do medo, à margem de todo instinto de autopreservação — guiado unicamente por aquela fome vergonhosa, latejante, acumulada durante anos, à qual já não conseguia resistir.
Simon inclinou-se para a frente — estendeu-se em direção aos lábios de Jacob, desejando aquele beijo com todo o seu ser, desejando obter, nem que fosse por um único instante, aquilo por que perdia a cabeça havia tantas noites.
Jacob não se moveu.
Apenas observava — imóvel, atento, frio. Observava aquele garoto molhado e trêmulo se estender em direção a ele, e no seu rosto não se moveu absolutamente nada: nem resposta, nem desejo, nem sequer nojo. Só a curiosidade fria e tenaz de um predador diante de cujos olhos a presa de repente faz algo inaudito.
Porque inaudito era, de fato. Todos aqueles anos, Simon só obedecera. Suportara, aguentara, entregara-se — aceitando docilmente tudo o que lhe faziam, e nunca, nem uma única vez, ousando dar um passo por conta própria. E agora aquele garoto calado, subjugado, sempre obediente de repente se estendera sozinho em direção a ele. Ele mesmo decidira. Por sua própria vontade, partira para a ação.
E era justamente isso que Jacob já não conseguia suportar.
Num instante, a curiosidade fria do seu rosto deu lugar a uma expressão dura, raivosa, quase ofendida — como a de alguém cujo objeto, sempre dócil em suas mãos, de repente ousa se mexer sozinho. Quem permitira à presa fazer um lance? Quem, diabos, a autorizara a se estender primeiro em direção a ele?
E, sem deixar que os lábios alheios tocassem os seus, Jacob empurrou Simon para longe, com força, com as duas mãos.
A tela se apaga.
Continua no próximo episódio.