LonelyDreamerAI The Edge of Stigma
Capítulo 2 · Temporada 1
02

A Faísca

Jacob volta a encurralar Simon — mas desta vez a presa responde. Uma palavra muda a caçada, e Priscilla ouve algo que não devia.

— Ei.

Uma única palavra curta — e o ar no corredor engrossou.

Jacob não erguia a voz. Não precisava. Apenas se postou diante de Simon, bloqueando-lhe o caminho até a curva salvadora, e o mundo inteiro se ajustou docilmente àquele momento. Os estudantes mais próximos diminuíram o passo. Alguns olharam de esguelha, outros esconderam um sorrisinho atrás da mão, outros se viraram por precaução — mas continuaram à escuta. Todos sabiam esse espetáculo de cor: se ele havia arranjado um divertimento, cabia à plateia assistir até o fim.

The Edge of Stigma · A Faísca

E foi aí — Jacob mais sentiu do que pensou — que a manhã cinzenta e baça ganhou, pela primeira vez no dia, um sabor. Aquele vazio constante e surdo sob as costelas, que o roía desde que acordara, recuou de repente, expulso por um ímpeto quente e tenso ao qual ele não dava nome. Ele se erguia sobre aquele garoto silencioso e curvado, e por suas veias se espalhava uma euforia já conhecida de longa data, vergonhosa, comparável a nada — como se só naquele segundo, ali, ele finalmente despertasse de verdade.

Ele não se perguntava por que precisava daquilo. Já sabia, no nível do corpo: . E isso bastava para voltar a ele uma e outra vez.

O próprio Jacob não sabia havia quanto tempo aquilo se arrastava, mas o prazo estava ali por perto, familiar como um calo antigo — quase três anos. Nesse tempo, quebrara não poucas espinhas alheias — valentões, arrogantes, daqueles que achavam que podiam se igualar a ele. E todos se comportavam da mesma forma: revidavam, partiam para a briga, ameaçavam, corriam reclamar. Resistiam. Era normal, era compreensível, nem o excitava de verdade — apenas punha cada um em seu lugar e logo enjoava.

Esse, não.

Esse nunca revidava. Esse apenas aceitava. Ficava parado e absorvia o golpe, e a zombaria, e a humilhação, os ombros e os olhos baixos, silencioso e submisso, como se dissesse com todo o seu corpo encolhido: "faça comigo o que quiser". E era disso — daquela não resistência muda do outro — que a boca de Jacob secava, e por dentro se retesava algo escuro, faminto, no qual ele preferia não fitar a fundo. Ele só sabia que queria mais. Que queria ver aquele garoto se curvar sob ele cada vez mais baixo. E toda vez que conseguia o que queria, ia embora com um zumbido retumbante e vergonhoso no sangue — e se desprezava por esse zumbido, exatamente até a próxima vez.

— Jacob, me deixa em paz.

A voz de Simon saiu baixa, estranha, quase imperceptível sob o zumbido do corredor. Ele não olhava nos olhos do algoz — mas para a gola da jaqueta dele, para o tecido vermelho e branco, para a orgulhosa letra dourada. Assim era mais fácil.

— Eu não te fiz nada.

Jacob sorriu. Devagar, com prazer.

— Cara. — Ele abriu os braços com falso espanto — bem largo, para a galeria toda ver. — Eu só perguntei como você tá. E você já me manda passear?

E nessa palavra — sem tomar impulso, sem transição — cravou o punho no ombro de Simon, num golpe curto e duro.

✦ ✦ ✦

A dor irrompeu branca e rolou pelo braço até a ponta dos dedos.

Simon cambaleou, foi levado para o lado, o caderno quase escorregou de suas mãos úmidas. Mas ele se manteve de pé. E — calou-se.

Era isso o mais estranho, o mais vergonhoso nele. O corpo sabia o que fazer, desde a infância, sabia melhor do que a cabeça: não se mexa, não grite, não responda. Imobilize-se. Fique menor. Espere passar. E em algum lugar bem fundo, sob a casca do medo, ainda ardia em Simon uma esperança louca, absurda, tenaz — de que, . De que Jacob simplesmente enjoaria. De que, um belo dia, eles poderiam não bater e não fugir, mas simplesmente… conversar. Como gente. Essa esperança era absurda, humilhante, incapaz de resistir a qualquer prova da realidade — e Simon se agarrava a ela, porque não havia mais nada a que se agarrar.

Ele não imaginava como a sua submissão parecia, vista de fora. Como os ombros caídos, o olhar que não se ergue e aquele mudo "faça o que quiser" eram lidos por quem estava acima dele. Ele não via o que era óbvio para o predador: seu silêncio não era tomado por capitulação. Era tomado por um convite.

E, como já acontecera tantas vezes, sob aquela dor remexeu outra coisa — aquilo que Simon mais odiava em si no mundo inteiro.

Ali, onde o punho do outro acabara de se cravar no ombro, a pele respondia não apenas com dor. Por baixo dela, contra a sua vontade, algo puxava, quente e vergonhoso — como se o corpo recebesse qualquer toque de Jacob, até aquele, com uma avidez que ele não ousava admitir para si. Simon cerrou os dentes a ponto de rangerem. Não. Eu o odeio. Eu o odeio. Mas as palavras soavam decoradas e vazias, e o calor sob a pele não ia a lugar nenhum.

Ele não entendia o que estava acontecendo com ele. Não entendia por que , entrelaçados tão apertado que já não dava para separar um do outro. Ele só sabia que estava doente. Que dentro dele algo estava quebrado e apodrecia, e que o culpado era ele mesmo.

✦ ✦ ✦

— Jacob.

A voz de Priscilla soou preguiçosa e entediada. Ela o puxou pela manga, sem sequer dignar-se a olhar para Simon — como não se dignam a olhar para uma mancha úmida no asfalto, para a sujeira sob os pés, para o vazio.

The Edge of Stigma · A Faísca

— A aula começa em dois minutos. Vamos. Não tenho interesse em ficar olhando isso.

Para ela, aquele garoto simplesmente não existia. Cenário, mobília, um estorvo que não merecia nem o desprezo. Mas pelo canto do olho, ao se virar, ela ainda assim notou a mesma coisa que notara de manhã: com que relutância Jacob se desgrudava do seu brinquedo. Como o olhar dele grudava, se demorava. E de novo, em algum lugar bem no fundo, um pressentimento frio e incômodo tiniu fininho — e de novo Priscilla o sufocou, sem deixar que tomasse a forma de um pensamento. Bobagem. Ele só está se divertindo. Ele sempre faz isso.

Jacob cedeu. Preguiçosamente, como um animal saciado, deixou-se conduzir. O espetáculo terminara; a multidão, perdendo o interesse num instante, seguiu fluindo para os próprios afazeres.

E foi então que Simon fez o que nunca fizera.

✦ ✦ ✦

Talvez a culpa fosse da dor no ombro, que pulsava surdamente sob o tecido. Talvez daquele calor vergonhoso que ele tanto odiava em si e pelo qual odiava Jacob ainda mais.

Ou talvez fosse uma questão de comprimidos.

Algumas semanas antes — depois que Craig, com um sorriso de escárnio, lhe acertou com gosto um tênis nas costelas, e Simon foi encontrado sentado no chão de um corredor vazio, encolhido, com o rosto apagado e oco —, alguém afinal o levou ao médico da universidade. Este lhe apontou uma lanterna nas pupilas, auscultou-o, fez duas ou três perguntas de praxe sobre como ele se sentia. E Simon disse o que sempre dizia, o que aprendera a dizer antes mesmo de aprender a mentir: só estava esgotado. Ando dormindo mal ultimamente. Nada sério, de verdade. O médico assentiu com cansaço, sem olhar de perto, e lhe passou uma receita — antidepressivos leves, "para equilibrar o sono e o humor". Simon foi embora, levando no bolso um pequeno retângulo de papel no qual .

Desde então, o mundo ao redor dele ficou mais silencioso. Mais abafado. Como se alguém tivesse — empurrando as vozes alheias para trás de um vidro, embotando as arestas afiadas das coisas, borrando tanto o medo quanto a dor. Simon não resistia a esse torpor; nele era mais fácil. Sentir menos. Só não percebia como, a cada dia, se dissolvia mais naquela névoa silenciosa — e como aquela voz lá dentro, que até pouco tempo se agarrava à vida e gritava que não podia ser assim, se tornava de dia para dia mais fraca, mais distante, mais indistinta.

Ou talvez, sob todos esses anos de silêncio, tivesse afinal sobrevivido uma única brasa em chamas — minúscula, teimosa, o último farrapo daquele Simon que ele fora antes de tudo aquilo — antes dos hematomas, antes da insônia, antes daquele dia no primeiro ano em que ele ainda acreditava que se podia estender a mão a alguém. E essa brasa, contra a sua vontade, exalou por entre os dentes cerrados — baixinho, quase sem som, mas alto o bastante para soar:

— Idiota.

Simon teve medo dela antes mesmo que terminasse de soar. O coração despencou para algum lugar lá embaixo, no frio. Por quê. Por que eu disse isso. Meu Deus, por quê. Todos esses anos ele se calara, sobrevivera pelo silêncio, escondera-se nele como numa concha — e agora, num único segundo estúpido, ele mesmo abrira a boca e deixara a tempestade entrar.

Era tarde demais.

✦ ✦ ✦

Jacob parou.

Ele tinha ouvido. No silêncio que se instaurara para os dois, aquela palavra curta soara mais alto do que qualquer grito. Ele se virou — devagar, muito devagar — e Simon viu o seu rosto mudar. O triunfo preguiçoso do predador saciado de presa fácil escorregou de repente, cedendo lugar a outra coisa. Algo agudo. Concentrado. Quase ávido.

Porque a presa se rebelou.

O rato que ele caçava metodicamente havia três anos, silencioso, sem voz, sempre submisso — pela primeira vez mostrou os dentes. E isso, contra toda a lógica, contra tudo o que Jacob sabia sobre si mesmo, não o irritou.

Isso o fisgou. Fundo. Num lugar completamente errado.

Num breve e perigoso segundo, a "aberração" opaca e sem rosto de súbito se revelou a ele como uma pessoa viva — com a sua própria raiva, a sua própria dor, o seu próprio fogo teimoso ardendo sob as cinzas. E esse lampejo de vida revelou-se mais desejável, mais assustador e mais atraente do que toda a submissão que Jacob lhe arrancara durante todos esses anos. Ele não entendeu o que exatamente acabara de acontecer dentro dele. Sentiu apenas a fome dentro dele passar, de surda e familiar, a algo agudo, dirigido, que agora tinha um nome e um rosto.

O rosto de Simon.

— Bebê — disse ele baixinho, e naquela palavra havia mais ameaça do que em qualquer golpe, do que em qualquer tapa. Ele não desgrudava de Simon os olhos escurecidos. — Eu ainda não terminei com você.

✦ ✦ ✦

Priscilla o esperava a alguns passos — e vira tudo, ouvira tudo.

Primeiro, o modo como aquele garoto cinzento, sempre mudo, de repente se rebelou. "Idiota." Baixo, trêmulo, mas nítido. Priscilla quase soltou uma risada de surpresa: em todos os meses em que observara preguiçosamente aquele espetáculo, o rato dava voz pela primeira vez. Engraçado. Até fofo no seu desespero — como se o capacho diante da porta tentasse, de repente, morder.

Mas então ela ouviu a segunda palavra. E o risinho ficou preso na garganta.

"Bebê."

Jacob a deixou escapar com tanta leveza, com tanto hábito, como se não a pronunciasse pela primeira vez. Não "aberração". Não "loser". Não "ei, você". Bebê. Não é assim que se cospe por entre os dentes para alguém que se despreza e se quer esmagar. É assim que se chama aquele a quem se volta.

Quando Jacob chegou à altura dela, já não restava em seu rosto a menor sombra de um sorriso.

— Por que você chamou ele de "bebê"? — perguntou ela. A voz saiu firme, mas sob a firmeza vibrava uma irritação que ela mesma não esperava sentir.

Jacob piscou. Olhou para ela com uma perplexidade sincera, quase desorientada.

— Eu? Chamei ele de bebê? — Ele franziu a testa, como se prestasse atenção ao eco das próprias palavras, do qual não se lembrava. — Ah, qual é. Nem percebi.

E isso era o pior de tudo.

Não insolência, não um desafio, não uma desculpa — mas a pura verdade. Ele realmente não ouvira aquela palavra escapar de sua língua. Mas Priscilla a ouvira com toda a clareza. E ouvira o que ela era.

O arrepio que ela vinha reprimindo a manhã toda finalmente se compôs num pensamento breve e muito desagradável.

Ela não disse mais nada. Apenas tomou Jacob pelo braço — mais firme do que o necessário — e o conduziu para longe, rumo às aulas, levando consigo um saber novo e incômodo.

The Edge of Stigma · A Faísca

Quanto a Simon, ele ficou ali, sozinho, no meio da corrente indiferente que escoava. Ele apertava o caderno contra o peito, o ombro ardia, e pelo corredor ainda vagava, assentando-se, o eco da ameaça do outro. Mas não era isso o mais assustador.

O mais assustador era aquilo que ardia sob as costelas — ali onde três anos haviam aberto nele aquele tal canal invisível, aberto para um único ser no mundo. Em vez de alívio, em vez de um medo tardio, naquele lugar crescia, lenta e irresistivelmente, um pressentimento — pesado, escuro, inevitável.

Ele acabara, com as próprias mãos, de lançar uma faísca no capim seco. Agora Jacob com certeza não o deixaria mais em paz — e Simon não entendia por que esse pensamento não ressoava nele apenas com horror.

A tela se apaga.

Continua no próximo episódio.

Capítulo concluído
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