LonelyDreamerAI The Edge of Stigma
Capítulo 1 · Temporada 1
01

O Invisível

Simon transformou a invisibilidade numa arte. Mas o olhar do rei do campus encontra-o em qualquer multidão — e numa manhã cinzenta Jacob aproxima-se ele mesmo.

Existe .

Simon a havia aprendido em três anos — não nos manuais, mas com o corpo, com a pele, com aquela parte do cérebro que não se desliga nem durante o sono. Sabia em que segundo empurrar a porta pesada para se misturar à corrente geral e nela se dissolver sem deixar rastro. Sabia por que lado do corredor andar para que, entre ele e o centro, houvesse sempre as costas de algum estranho. Sabia que não se podia erguer os olhos, não se podia diminuir o passo, não se podia ocupar um grama de espaço a mais do que o que era reservado a alguém como ele.

Apertava o caderno contra o peito com as duas mãos — e não por causa do frio. Era um escudo. Uma armadura de papel contra um mundo que, havia muito, já no primeiro ano, sem julgamento e sem palavras, lhe pronunciara a sentença.

E as raízes dessa sentença mergulhavam muito mais fundo — bem antes da universidade. Até em casa, onde o pai, ao chegar ao fundo da garrafa, deixava atrás de si mais do que hematomas. Ali, ainda criança, Simon aprendera a regra mais importante da sobrevivência: quanto menos te veem, menos te batem. Que a imobilidade também era uma forma de escapar ileso. Que, se a pessoa se imobilizasse a tempo, se encolhesse, virasse uma sombra na parede, um móvel, um espaço vazio — a tempestade às vezes passava ao lado, sem tocar. O corpo gravou isso antes mesmo de a língua aprender as palavras: não resista, não chame atenção, sobreviva. Deixe alguém entrar, e só vai piorar. Foi o que lhe ensinaram em casa. E a escolha — deixar entrar ou não — ninguém nunca lhe deu.

E houve aquela única vez, no primeiro ano, em que ele quebrou a própria regra. Quando viu Jacob — barulhento, dourado, vivo a ponto de ser indecente — e alguma parte ingênua dele, ainda não de todo destruída, se estendeu em direção a ele. Foi ele mesmo quem se aproximou. Primeiro. Puxou conversa, perguntou alguma bobagem sobre as aulas — não importava o quê, contanto que houvesse algo a que se agarrar, contanto que pudesse existir por um segundo aos olhos de alguém. Até hoje não conseguia se perdoar por isso. Porque foi exatamente a partir daquele segundo que tudo começou. E agora ele sabia com firmeza, sabia nos ossos: estender-se em direção às pessoas era um luxo a que ele não tinha direito.

A luz da manhã nos corredores da universidade era uniforme, branca, impiedosa — escorria das longas lâmpadas no teto e não deixava sombras onde alguém pudesse se esconder. As portas de vidro, no fundo do corredor, banhavam-se no brilho turvo de um dia nublado. Cheirava a poeira, a papel, a perfumes alheios e àquele cheiro peculiar de linóleo e metal que aquele lugar sempre tivera. Centenas de tênis rangiam no chão, centenas de vozes se fundiam num zumbido contínuo, e nesse zumbido Simon sabia se mover como um peixe em água turva — ninguém, nada, um ponto transparente entre as vidas dos outros.

The Edge of Stigma · O Invisível

E, ainda assim, todas as manhãs a mesma coisa o entregava. O corpo sabia antes da cabeça.

Nada acontecera ainda — a corrente não estremecera, as vozes não se calaram —, e já, sob as costelas de Simon, uma corda fina se retesava. Ele sentia isso de forma tão infalível quanto um animal sente a tempestade para além da linha do horizonte: em algum lugar, no outro extremo do corredor, Jacob acabara de aparecer.

Simon odiava em si essa sensibilidade. Odiava o modo como, instantaneamente, tudo dentro dele se contraía, se aguçava, punha-se à escuta. Era mais humilhante do que qualquer golpe — o fato de seu próprio corpo manter, para aquele homem, um canal à parte, sempre aberto. Como se três anos de medo tivessem gravado nele uma marca invisível, e agora ela latejava surdamente assim que seu dono se aproximava.

Ele não se virou. Apenas apertou o caderno um pouco mais forte contra o peito e seguiu em frente, contando os passos até a curva, atrás da qual poderia enfim respirar.

✦ ✦ ✦

Jacob entrava no corredor como os reis entram na sala do trono.

Não precisava fazer nada para isso. Não erguia a voz, não abria caminho à força na multidão — a multidão se afastava sozinha diante dele, um pouco, de modo quase imperceptível, segundo alguma lei antiga que ninguém havia escrito, mas que todos sabiam de cor. A jaqueta universitária vermelha e branca, com o orgulhoso "U", assentava-lhe nos ombros largos como um manto real. O zumbido de vozes ao redor não diminuía — mas mudava de tom: surgia nele uma certa cautela. Alguns se endireitavam, outros buscavam seu olhar na esperança de um aceno, outros desviavam os olhos. O ar em torno de Jacob estava sempre levemente eletrizado — como acontece perto de quem tem o poder de causar dor e de perdoar.

Ao lado dele, no mesmo passo, caminhava Priscilla.

Ela estava à altura dele — vistosa, lisa, polida até o brilho. Os cabelos escuros caíam numa onda pesada, o top vermelho repetia a cor da jaqueta dele, como se tivessem combinado de antemão, como se não fossem duas pessoas, mas . Ela caminhava e sorria — não para as pessoas, mas para o simples fato de estar caminhando ali, ao lado dele, no topo.

— Você já terminou a tarefa de economia? — perguntou ela, sem diminuir o passo.

— Quase — respondeu Jacob. A voz dele era preguiçosa, quente, segura — a voz de alguém que nunca na vida precisou ter pressa. — E você?

— Também quase. — Priscilla bufou. — Copio de alguém antes da aula.

Jacob esboçou um sorriso de canto de boca. Tudo era familiar, fluido, ensaiado até o automatismo — aquele corredor, aquela garota, aquela manhã em que tudo lhe pertencia. Ele poderia atravessá-la de olhos fechados. E era exatamente por isso que se sentia tão… vazio.

Nisso, é claro, ele não pensava com palavras. Reis não se queixam. Mas em algum lugar bem no fundo, sob a armadura feita da admiração alheia, vivia nele uma fome constante — uniforme, surda, sem nome. Ele precisava de algo que resistisse — algo em que afiar os dentes, em que se sentir vivo.

E então o seu olhar, que deslizava por sobre as cabeças com a habitual indiferença real, prendeu-se contra a vontade — e não soltou mais.

Um moletom cinza com capuz. Uma figura magra, comprimida contra a parede de armários. Um caderno apertado contra o peito com as duas mãos, como se o dono temesse que o tomassem dele. Um rosto pálido, os olhos baixos, olheiras escuras da insônia perpétua.

— Ah — arrastou Jacob, e a fluidez preguiçosa abandonou sua voz por um segundo. — O Simon está aqui.

The Edge of Stigma · O Invisível

Ele não percebeu que diminuíra o passo. Não percebeu que a cabeça se virava sozinha — como se atraída. Não se deu conta de que, um segundo antes, havia em seu peito um vazio cinzento, e agora um calor se espalhava por ele — maligno, vivo, e tanto mais vergonhoso por ser quase agradável. Se lhe perguntassem, ele chamaria aquilo de irritação. E juraria que não estava mentindo.

Entre dezenas de rostos sem feição, em meio a toda aquela massa cinzenta que ele não distinguia nem guardava na memória, havia um — aquele garoto silencioso, acuado, que, por algum motivo, não se confundia com o cenário. Que ficava preso. Que, por alguma razão, vivia sob a sua pele havia esses três anos, como uma farpa que se tem preguiça de tirar: sua dor surda e latejante há muito se tornara familiar — quase própria.

E, ainda assim — se alguém lhe perguntasse de verdade, se Jacob se permitisse ao menos um segundo de honestidade —, ele não saberia explicar uma coisa simples. Por que, pelo terceiro dia seguido, as pernas o levavam sozinhas exatamente para aquele corredor. Seu anfiteatro ficava em outra ala, num lado completamente diferente. À sua corte tanto fazia onde perambular até as aulas. Mas ele os conduzia até ali vez após vez — passando por aqueles armários verdes, por aquela parede — sem admitir para si mesmo que não era ele quem escolhia o trajeto. Que ele próprio, sem se dar conta, .

Ele diria que não corria atrás de ninguém. Que os reis não correm atrás da presa — eles esperam, e o mundo lhes traz por si só o que lhes é devido. Ele até acreditaria nisso. Só que o seu olhar encontrava Simon em qualquer multidão por conta própria, sem ordem, numa fração de segundo — assim como se destaca, entre cem rostos alheios, não uma pessoa qualquer, mas aquela que se procura sem cessar. Mesmo quando se jura tê-la esquecido.

. Essa pergunta nem sequer tentava vir à superfície — e, se tentasse, Jacob a afogaria sem nem olhar.

✦ ✦ ✦

Mas Priscilla percebeu.

Ela sempre percebia esse tipo de coisa — era a sua força e a sua maldição. Sabia ler rostos, pausas, a direção dos olhares; sabia detectar o interesse alheio antes mesmo que a própria pessoa tomasse consciência dele. Foi assim que, certa vez, ela detectou e conquistou o próprio Jacob. Foi assim que, agora, ela sentiu uma pontada — fina, fria, bem junto ao coração — ao ver para onde olhava o namorado.

Ela seguiu o olhar dele. Um moletom cinza. Um garoto pálido junto aos armários.

— Você fica encarando ele assim — disse ela. O tom era leve, provocador, mas por baixo dele, bem no fundo, algo tiniu fininho — como gelo depositado no fundo de um copo. — Você tem ideia de quanta atenção dá a ele?

Jacob piscou, como se o tivessem arrancado de alguma coisa.

— A quem? — perguntou ele depressa demais. E desviou os olhos no mesmo instante — depressa demais. — Ah, esse. — O sorriso saiu torto, falso. — Ele só me dá nos nervos.

— Aham — disse Priscilla.

— Aberração — acrescentou Jacob, como se aquilo explicasse tudo. — Loser. Pra que ficar olhando pra ele.

Disse isso com leveza, com desprezo, como se fala de algo que não merece um segundo de reflexão. Mas Priscilla conhecia o seu rei. Viu-o enrijecer — por uma fração de segundo, quase imperceptivelmente. Viu que ele cuspiu a palavra "aberração" um pouco rápido demais, um pouco alto demais — .

Ela não disse mais nada. Apenas sorriu — com aquele sorriso que nunca chega aos olhos — e o tomou pelo braço um pouco mais firme do que um minuto antes. Num pequeno gesto possessivo. Como se traçasse uma fronteira. Como se marcasse algo — alguém — com um selo: meu.

Ela ainda não sabia contra quem estava em guerra. Mas o instinto — aquele mesmo que sempre farejava a ameaça primeiro — já se pusera em posição.

✦ ✦ ✦

Simon ergueu a cabeça por um segundo. Por exatamente um.

E se arrependeu na hora.

Por cima das cabeças, através do zumbido, através de toda a distância que os separava, seus olhos cruzaram com os de Jacob — e o mundo, por um instante breve e nauseante, encolheu-se a esse único olhar. Os olhos escuros do rei o fitavam com aquele interesse preguiçoso e predador com que um gato observa um rato encurralado — sabendo de antemão que vai alcançá-lo, e deleitando-se com isso de antemão.

Pronto. De novo ele.

Por dentro, em Simon, tudo afundou num bolo frio. Cansaço — foi o que ele sentiu primeiro. Nem medo, mas o cansaço surdo e sem esperança de quem sabe bem demais o que vem a seguir. Dali a pouco, Jacob se aproximaria. Dali a pouco, diria alguma coisa — baixinho, quase com carinho, com aquela sua voz insinuante que dá vontade, ao mesmo tempo, de se encolher contra a parede e de afundar pelo chão. Dali a pouco, tudo recomeçaria, no mesmo círculo que já percorria havia três anos.

Simon baixou os olhos e pôs-se a contar febrilmente. Oito passos até a curva. Se acelerasse — conseguiria. Se conseguisse — talvez se safasse. Só não olhar. Só não diminuir o passo. Só ser transparente, achatado, um nada…

Mas sob o cansaço, sob o medo — naquela parte de si que ele mais odiava —, àquele olhar respondia algo totalmente diferente. Ali, onde três anos haviam aberto nele aquele tal canal invisível — só para Jacob —, algo puxou, quente, e um arrepio lhe percorreu a pele: vergonhoso, doce, daqueles que dão vontade de fechar os olhos com força.

O corpo recebia o ódio alheio como se fosse uma carícia.

Porque Jacob olhava para ele. Para ele. De todos naquele corredor — para ele. E alguma parte quebrada, faminta de Simon, aquela que durante anos ninguém notara, que ninguém chamara pelo nome, que o olhar contornava como um espaço vazio — essa parte . Que fosse ódio. Que fosse desprezo. Que fosse uma caçada. Mas estava dirigido a ele — e isso significava que, no mundo dos outros, ele existia, apesar de tudo.

Eu o odeio, disse Simon a si mesmo, e as palavras soaram em sua cabeça uniformes, decoradas, como uma oração em que já não se acredita há muito tempo. Eu o odeio.

Então por que o coração batia assim, como se ele não estivesse fugindo, mas correndo ao encontro?

✦ ✦ ✦

Jacob se afastou de Priscilla.

Fez isso maquinalmente — soltou o cotovelo dos dedos dela sem nem perceber que o segurava com mais força do que de costume. Algo o puxava para a frente — e ele ia, como se vai em direção a uma luz no escuro, sem perguntar de onde ela vem. A corte ficou para trás. O zumbido do corredor afastou-se, virou pano de fundo. Restou apenas um estreito túnel de ar entre ele e a magra figura cinzenta junto aos armários.

Simon apressou o passo. Tarde demais.

A jaqueta vermelha e branca avançou — larga, encobrindo a luz. Simon sentia sua aproximação nas costas, na nuca; sentia o mundo se estreitar, o corredor se fechar sobre aqueles últimos metros onde já não havia onde se esconder. Oito passos. Seis. Quatro. As palmas das mãos sob o caderno ficaram úmidas, a garganta secou — e a batida traiçoeira no peito era mais alta do que o medo.

Ele não teve tempo de chegar à curva.

Acima dele, bem perto, ergueu-se uma sombra. Quente, pesada, cheirando ao desodorante de outro e ao couro da jaqueta. Simon ergueu os olhos — devagar, resignado, como se erguem para aquilo que não se pode deter.

E encontrou o olhar de Jacob. A dois passos. A um.

O rei do campus o olhava de cima para baixo, e em seu belo rosto desabrochava, devagar, inexoravelmente, aquele tal sorriso — preguiçoso, predador, saboreando de antemão. O sorriso de quem finalmente encontrara, naquela manhã cinzenta e vazia, em que afiar os dentes.

— Ei — disse Jacob. Baixinho. Quase com carinho.

The Edge of Stigma · O Invisível

O corredor ao redor continuava vivo — zumbia, ria, corria para as aulas, sem perceber que, junto à parede de armários verdes, naquele minúsculo ponto do espaço, acabara de se fechar o primeiro laço.

Nenhum dos dois sabia ainda.

Que aquele segundo era um começo.

Que dele, como um espinho negro sob a pele, brotaria lentamente todo o resto: um ódio que se tornaria obsessão, um amor que se tornaria veneno, e o preço que ambos pagariam.

O rei se inclinou sobre a sua presa.

A tela se apaga.

Continua no próximo episódio.

Capítulo concluído
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